Lendo na internet e conversando com pessoas que já fizeram o caminho de santiago, descobri que existem alguns desafios bem interessantes no caminho, e resolvi listar eles aqui para futura referência.

Escassez de água

1. Pirineus 10 km

Dois quilometros depois da imagem da Virgem de Biakorre, se abandona a estrada e se entra por uma trilha a direita, que vai margeando o Monte Leizar Atheka. Logo a seguir encontramos a Fonte de Roldán, o cavaleiro, sobrinho de Carlos Magno que morreu emboscado na batalha de Roncesvalles, originando o fato a famosa gesta medieval, La Chanson de Roland. É a última fonte até Roncesvalles.
Não há uma única casa no trajeto, só bosque, e o que se encontra são alguns rebanhos de ovelhas ou gado. Nenhum carro, nem pastores, nem moradores. Só o silêncio e as nuvens que rodeiam o peregrino.
É mais que necessário levar água suficiente neste trajeto, que não é muito pequeno e exige bastante do peregrino, pois é cheio de curvas e subidas.
O Collado Lepoeder, o ponto alto deste trecho nos Pirineus, fica mais ou menos na metade do caminho da fonte até Roncesvalles.

2. Monte do Perdão – 6 km

Depois de Cizur Menor, um povoado é atravessado, Zariquiegui, mas não existem bares raramente se vê pessoas nas ruas. Existem alguns pequenos regatos, e já perto do alto do Monte, uma fonte, a da Reniega, local de uma das belas histórias do Caminho, a da tentação do peregrino que estava com sede subindo o Perdão. Depois da descida do monte, o pueblo mais próximo é Uterga, a mais 6 km de distancia. O trecho não é longo, mas a subida e o esforço da descida aumentam a necessidade de água.

3. Villamaior de Monjardim – Los Arcos – 12,4 km

Este é também um trecho em que não existe uma única casa. Só plantações e algum trator, dependendo da época agrícola. Depois da colheita, não se encontra nada, só imensos campos, até Los Arcos.

4. Ventosa a Najera – 8 a 10 km

Não há bares, não há fontes. Os pueblos aparecem a distancia. O rio Yalde, que é transposto, dependendo da estação do ano, pode exibir só pedras no seu leito.

5. Azofra a Cirueña – 9,2 km

Subida, sem água, sem fontes, sem casas. Cirueña fica a alguns metros, mas não se passa dentro da cidade. Este caminho não é o original. O caminho original está hoje debaixo de plantações e o atual caminho foi desviado para passar por este pueblo, e a ele foi acrescido a subida bem pronunciada, que não existia no original.

6. Villafranca Montes de Oca – San Juan de Ortega – 12 km

Uma fonte logo depois de Villafranca, Depois, o “tobogã”, cheio de subidas e descidas, não tem uma única fonte até San Juan de Ortega.
Não há casas, só bosque e canto de pássaros.
Mesmo no Monumento aos Caídos da Guerra Civil Espanhola, não há uma fonte.

7. Carrion de los Condes – Calzadilla de la Cueza – 17, 2 km

Este é o maior trecho sem água. Depois da Abadia de Benevivere, não há uma única casa, nada. Só intermináveis campos. E nunca se sabe onde está Calzadilla. Nada se vê no horizonte. Depois de muito Tempo, que se magnífica pelo horizonte sem fim, surge uma torre.
Algum ou muito tempo depois, dependendo do seu cansaço, se vê que a torre é de uma capela do cemitério. Mas só. Depois, surge Calzadilla, com a imagem do albergue do César Acero, e desde a era Acacio – Orietta, com uma grande bandeira brasileira na janela, costume mantido pelo baiano Sandro. É uma visão de oásis.
Não sair NUNCA de Carrión sem água. E bastante.

8. Arzua – Rua – 17, 6 km (Salceda)

Passa-se por um pueblo, mas não há bares.
O primeiro que se encontra é em Rua. Aliás, há dois no povoado, ambos a direita do Caminho. O segundo é da tia Dolores, uma galega simpaticíssima que faz uma ótima empanada, deixa tirar as meias ( nem todo bar permite isso!), secá-las ao calor da lareira, quando está chovendo, o que ocorre quase sempre na Galicia, e gosta muito de uma prosa, até parece mineira…

Sinalização

O Caminho Francês, de modo geral, está muito bem sinalizado e pode-se mesmo dizer que é MUITO difícil que o Peregrino se perca.

Em todo o norte da Península Ibérica, desde os Pirineus, a leste, até os confins da Galiza, a oeste, foram postos pelas Associações européias rústicos sinais para a orientação dos andarilhos, em especial nas áreas mais desabitadas. São placas, monólitos, emblemas, pedras sobrepostas e principalmente pinturas em forma de flechas amarelas.

Hoje, os modernos viajantes encontram no chão, em postes, monumentos, muros, troncos de árvores e até nas fachadas de residências as famosas flechas amarelas, verdadeiras estrelas-guias dos peregrinos. Basta segui-las para chegar a Santiago de Compostela.

1. Pirineus

Este é um trecho em que a sinalização é mais deficiente.
Como é feita principalmente com setas pintadas no chão, no período de inverno pode estar totalmente oculta pela neve, ou, mesmo no verão, não poder ser vista porque a tinta das setas desbotou.
A Oficina de Peregrinos em Saint Jean Pied-de-Port distribui um mapa e orientações, especialmente para o trecho que se inicia 2km depois da imagem da Virgem de Biakorre, quando se deixa a pequena estrada da montanha e se caminha por uma trilha que vai ladeando o Monte Leizar Atheka. Há hoje, neste trecho, uma tosca cruz com muitas fitas penduradas, mostrando o lugar da saída da estrada e a entrada na trilha.
Muitos peregrinos já se perderam no inverno, alguns com conseqüências desastrosas. Esta trilha, que atravessa bosques, hoje está “cercada” por arame, facilitando o reconhecimento do trajeto e impedindo que o peregrino se perca entre as árvores, como acontecia com alguma freqüência.

2. Ventas de Naron – Eirexe

Um bom trecho está sem setas amarelas, mas o trajeto não é difícil de ser seguido, já que corre em paralelo a uma estrada vicinal. Há uns dois cruzamentos sem sinalização, mas o caminho é feito sempre pela estrada principal.

Subidas

1. Pirineus

Se sai de uma altitude de 200 m em Saint Jean Pied-de Port até 1 440 m no Collado Bentartea.
Os primeiros 5 km são os mais íngremes, até Untto.
Depois, as subidas são constantes, mas menos acentuadas.
O ponto mais importante neste trecho é a previsão metereológica.
Tempestades com vento são perigosas nos Pirineus. Subir sempre bem informado a este respeito.

2. Alto do Erro – 1 000 m

O desnível não é tão grande, pois Linzoain está a 760 m, mas há um trecho muito inclinado, piorado pelas pedras do piso, que formam finas laminas. No último Ano Santo, este trecho foi aplanado e, embora a subida continue íngreme, especialmente depois de Espinal, as pedras foram cobertas com cascalho e não oferecem mais tanto perigo, em uma eventual queda.

3. Monte do Perdão – 734 m

Pamplona está a 400 m. Não é muito difícil, pois é uma súbita constante e não abrupta, especialmente quando não está ventando muito. A região é chamada de Caminho dos Ventos. Que são aproveitados pela centena de modernos cataventos para a produção de energia eólica.

4. Puente La Reina – 345 m a Maneru – 495 m

A diferença não é muita. Mas acontece em um único trecho, um desvio feito no Caminho, devido à construção da estrada, que é um aclive bem pronunciado, e que se torna um lamaçal pegajoso com a chuva. A trilha é rodeada de arbustos espinhosos, que ferem se se tenta apoiar neles. Sem chuva, a dificuldade maior é um “degrau” pronunciado, de mais de um metro, difícil de ser transposto sem auxílio.

5. Meseta de Cirueña a 752 m

Azofra está a 565 m, mas o aclive é bem pronunciado, por cerca de 9,3 km. Foi um desvio feito no Caminho original, hoje coberto por plantações.

6. Alto de Mostelares – 890 m

A diferença de altitude para Castrojeriz é de pouco mais de 100 m, mas a subida é bastante íngreme, embora compensada pela beleza da paisagem. O vale, com plantações de diversas nuances de verde ou amarelo, dependendo da estação do ano, com Castrojeriz e seu castelo, no alto de um pequeno monte, compensa a dureza da subida.

7. Montes de Leon – Foncebadón – Cruz de Ferro – 1 460 m

Rabanal fica a 1 150 m. O aclive mais acentuado fica entre Foncebadón e a Cruz de Ferro, mas é breve.

8. Cierro del Real – após Villafranca del Bierzo

7,2 km da rota “só para bons caminhantes” como informa um cartaz no início da trilha. A subida é muito pronunciada e longa. A paisagem do Bierzo compensa o cansaço, dizem. Absolutamente não aconselhável subir com tempo chuvoso.

9. O Cebreiro – La Faba – 1 300 m

É um trecho íngreme, mas não muito demorado. A subida até O Cebreiro é entremeada de trechos planos, o que dá tempo de recompor a musculatura que foi exigida. É temido, mas na realidade, ou talvez por se esperar uma subida muito difícil, se revela um trecho agradável e sobretudo, muito, muito lindo.

10. Alto de Poyo

Pouco mais alto que O Cebreiro, mas um trecho pequeno, que não exige muito do peregrino.

Descidas

1. Alto do Erro 100 m a Zubiri 495 m

A diferença de altitude não é muito grande, mas a descida é longa e contínua, por mais de 5 km, acentuada pelo solo coberto de pedras que formam finas laminas dispostas perpendicularmente. As panturrilhas sentem o esforço contínuo e a chegada a Zubiri é um alivio.

2. Monte do Perdão – 734 m a 495 m em Uterga

A descida não é muito longa nem muito abrupta, mas o solo, coberto por pedras que conhecemos como seixos de rio, pedras redondas e lisas, que resvalam quando se pisa, exige uma descida extremamente cautelosa, com o apoio firme do cajado.
A descida do Perdão é muito pior que a subida.

3. Manjarin 1 460m a El Acebo 1 150 m

O último trecho, ao chegar a El Acebo, é muito abrupto e perigoso. No Ano Santo de 2004, foi construído um novo acesso, mais longo, mas muito mais tranqüilo. O perigo da descida a El Acebo, hoje é só história.

4. Riego de Ambrós 920 m a Molinaseca 590 m

Para mim, a pior descida do Caminho.
O solo todo em pedra lisa, deve ser muito perigoso quando chove. Não é muito longo, mas bastante escorregadio.

5. Rozas – 659 m a Portomarin – 350 m

A descida se extendo por 6,8 km, tornando-se mais acentuada no ultimo trecho e chega à ponte sobre o rio Miño.

Subidas e Descidas

1. Torres del Rio – Viana 10,9 km

Este é um trecho cansativo pelas subidas e descidas, ausência de pueblos e a visão de Viana, que parece estar chegando e depois se vê que continua distante… para depois parecer próxima de novo… e mais uma vez, sumir… As descidas não são muito íngremes, mas o solo, de pedras redondas, lisas e soltas, faz com que sejam como várias pequenas descidas do Monte Perdão, exigindo atenção e cuidado.

2. Montes de Oca 12 km

Este trecho é outro tobogã. O caminho é muito lindo, em um bosque em que predominam pinheiros, num trecho sem pueblos nem tráfego. Só eventualmente se vêem peregrinos.